Experiência de contato com DMT
Segue um relato bem interessante, de um amigo que provou pela primeira vez um extrato de DMT.
Por Nob
Consegui um pouco de DMT para fumar. Não tenho muitas informações sobre como isso foi preparado. Sei apenas que seria Changa, com DMT extraído (aqui no Brasil) de Jurema e um pouco de alecrim (para a combustão). Também soube de alguns relatos de uso desse material, muito parecidos com os de quem experimenta DMT puro. Há tempos que desejava experimentar só DMT, por já ter alguma experiência com ayahuasca. Então, não hesitei diante dessa oportunidade.
Changa é uma substância nova, que começou circular no ano passado em festivais psicodélicos do exterior. Em termos de tempo de chegada e duração, seria como Salvia divinorum, mas com efeito visionário de outra qualidade. Não há muito consenso sobre o que é exatamente. A teoria mais aceitável é que se trata de um fumo com DMT e alguma fonte de harmalina/harmina/IMAO, pelos efeitos descritos e por alguns relatos, supostamente, dos criadores da mistura. Resumidamente seria uma ayahuasca fumável, com efeito mais curto. A vantagem sobre o DMT puro é que há o "ancoramento" da harmalina — com uma viagem um pouco mais pé-no-chão do que o salto à velocidade da luz do DMT puro — e o prolongamento do DMT pela ação IMAO. Cheguei a essas informações pesquisando na web.
O que chegou a mim não dizia nada sobre outro psicoativo além do DMT nessa mistura. Mas olhando o material, vi que podia mesmo ser Changa, já que se tratava de um fumo e não cristais.
O "setting" da sessão foi a sala de um apartamento — apesar da localização urbana, a tarde estava tranquila e sem barulho externo. Altar, muitos elementos budistas, velas, incenso, almofadas, tapete, mantras tibetanos como música. Ótima relação de amizade/confiança com N., a pessoa que se alternou como "cobaia" e "guia".
O "set" era uma intenção de auto-conhecimento espiritual.
Ou seja, tudo o que a etiqueta psicodélica recomenda.
Na minha vez, sentei com as pernas cruzadas diante do altar, fiz uma oração e fumei uma quantidade bem pequena, equivalente a umas cinco cabeças de fósforo. Um trago só. Em menos de dez segundos veio. Primeiro no corpo, força bem de energia, com um zumbido crescente. Ela domina completamente. Não haveria como resistir. Tudo muito rápido: dois ou três segundos e pronto! Fui! A mudança que acontece quando chega o efeito é vertiginosa. Montanha russa.
Olhos fechados. Fractais vermelho-sangue se abriram em pétalas de lótus. Muito cristalino e reluzente. A nitidez era inédita; nem a realidade convencional tem toda essa definição! Só lembro de visões que se aproximariam disso nas primeiras vezes que bebi ayahuasca (centenas de sessões atrás). Uma beleza incrível, muito além das meras animações tipo computação gráfica. Alegria transbordante.
A sensação era de ser sugado ou transportado. Então, cheguei num lugar. Havia uma presença feminina, maternal. Muito poder. Não me lembro direito de tudo que aconteceu aí. Pois a linguagem e as leis de funcionamento eram outras. Só sei que aconteceu muita coisa.
Tudo girava em torno, acho, de algo que estava sendo ensinado para mim: como preparar um enteógeno ou elixir. Estava sendo mostrado um processo de preparo. Mas não sei que enteógeno era esse e não consegui reter as informações. Imagino que tivesse algo a ver com a Jurema-DMT. Nunca tinha visto isso, uma miração assim de "ensino" tão explícita, com contato direto com uma "entidade" e tudo mais.
Fiquei consciente o tempo todo de estar sentado ali tendo uma experiência visionária de olhos fechados. Lembro disso pois passava pela cabeça a ideia de abrir os olhos às vezes, mas optei sempre por não fazer isso. Só fiz quando senti que a "história" havia acabado e havia sido transportado de volta.
Sorri muito, realmente feliz, radiante. Abrindo os olhos e vendo o tapete, notei que ele tinha uma séria tendência a formar espirais. As imagens budistas nas paredes estavam com um brilho laminado, as deidades com halos que mais pareciam túneis — efeito comum com um lote de ayahuasca super-chacronada (ou seja, com muito DMT) que às vezes bebo. Mas não prestei muita atenção na percepção externa. Estava maravilhado demais com o que tinha acabado de acontecer "internamente".
Falei algumas poucas frases para N.: "Nunca vi coisa igual", "Ainda não entendi o que aconteceu", "Recebi uma mensagem"...
Quando o pico visionário já tinha passado, sobrando uma energia vibrante no corpo, fiquei com frio e tive tremores leves involuntários como os que sinto às vezes com ayahuasca.
Isso tudo levou menos que dez minutos. Depois, tentei fumar um pouco mais do que sobrou no cachimbinho, mas eram só quase cinzas e veio apenas uma energia extra no corpo. Apesar de ainda haver bastante fumo disponível no invólucro, para mim já tinha dado. Material para refletir por várias semanas.
Ficou uma brisa por várias horas ainda depois da sessão. Um estado de paz. Uma dilatação da percepção interna.
Para mim foi uma experiência transcendental pura. Valiosíssima. Obviamente que não é pra todo mundo, devido à intensidade abismal. Também está longe de ser algo para diversão. Não há nada de divertido. Pelo contrário, o medo chega a se insinuar várias vezes diante do mistério que começa a se desdobrar e termina se escancarando. Há sim alegria e êxtase incríveis, mas não do tipo mundano.
Bebo ayahuasca com frequência e acho que esse tipo de experiência soma bastante.
Como curiosidade, ainda estou na dúvida se há harmalina/IMAO na mistura. Pois senti bastante a força-energia no corpo que se atribui ao cipó Mariri/Jagube. Mas também penso que o DMT certamente têm seu elemento corporal de energia.
Atualização: Segue o segundo texto de Nob sobre outra sessão com essa substância.
As condições foram as mesmas da 1ª vez, com exceção de que era noite, houve meditação antes de cada experiência e a pessoa que me acompanhou dessa vez foi E., outro amigo simpático a enteógenos.
A claridade apenas das velas na escuridão da sala criou um efeito bem aconchegante. Antes de cada um dar o mergulho enteógeno, fazíamos uma meditação breve para serenar a mente e os pensamentos.
Foi a primeira vez de E. com esse tipo de substância. Ele foi primeiro. Vou apenas resumir o que me contou. Fumou três vezes. Na primeira, teve um êxtase visionário, com formas em múltiplas dimensões; sorria de orelha a orelha o tempo todo. Na segunda, achou que havia morrido; viu seu karma e ficou com medo; rezou muito para o Buda Amitabha e conseguiu se libertar, entrando em um estado de paz. Na terceira, experimentou "raios de poder" saindo de Buda e chegando em espirais fantásticas até ele. Com diversos anos de experiência com ayahuasca, ele também relatou nunca ter vivenciado nada igual.
Na minha vez, estava com medo e muita ansiedade, por já saber mais ou menos do que se tratava. Uma parte de mim queria desistir.
Sentei em meditação em frente ao altar, meditei sem pensamentos por uns minutos, rezei pedindo para ser guiado e que o benefício pudesse ser universal, para absolutamente todos os seres. Fui.
A música que tocava era um canto em sânscrito de um texto sagrado budista: "Cantando os Nomes de Manjushri".
Quando começou o mergulho na montanha-russa, senti uma força em cores listradas penetrar em mim goela abaixo em alta velocidade. Era uma sensação não apenas tátil, mas que inundava todos os sentidos e também a consciência. Meu ego sentiu violência sem precedentes: estava sendo invadido por todos os lados e poros imagináveis — tenho receio da impressão que tais palavras podem sugerir, mas as expressões que me vêm a mente é que eu estava sendo "arrombado", "arregaçado", não sobraria nada depois disso. Mas era algo benigno, pude sentir. Foi tão visceral que, se isso se prolongasse por mais tempo, teria vomitado. Parecia que ia explodir.
Quando me dei conta, já estava num daqueles universos que o pintor Alex Grey retrata (como o da pintura abaixo, chamada "Bardo Being". Para quem vê coisas assim sem nunca ter entrado nesse tipo de estado, pode parecer assustador. Mas no momento em que se vivencia isso, é de uma beleza além de formas ou palavras).

Reconheci o sânscrito da música tocando e o nome "Manjushri", "Manjushri"... Isso me fez perceber que estava havendo um tipo de iniciação ou purificação tântrica. As indescritíveis formas, cores, sons e pensamentos multidimensionais eram todos o corpo de Buda e também meu corpo e de tudo mais. Começou outro canto sânscrito: "Louvor aos Cinco Tathagatas". E a "iniciação" continuou...
Como da primeira vez, não consegui trazer de volta tudo o que vivenciei. Mas basicamente foi algo 100% ligado a Buda. Sentia que estava sendo abençoado, ensinado, purificado.
Quando o pico visionário terminou, abri os olhos e não reconheci o ambiente, de tão transfigurado. Já nem lembrava que havia consumido um enteógeno. Externamente, sorria, sorria. Internamente, agradecia pela benção sagrada. Abri de novo os olhos e o tapete começou a me parecer familiar, apesar de ter se transformado em uma paisagem de montanhas de um mundo paradisiacamente colorido, de alegria sem limites. Terra Pura!
Então me lembrei de onde estava, quem era e o que estava fazendo. Aí senti mais alegria ainda e me prostrei em direção ao altar. Comentei com E.: "Nunca houve nada parecido!!!", e explodimos numa gargalhada devocional.
Depois do efeito, sobrou uma energia extra alojada no peito, se ramificando por todo o corpo e para fora. Como se eu tivesse sido infundido com isso.
Conclusões
Sim, o "set & setting" definiu totalmente as experiências. Como eu, E. também é budista. E parece que tudo girou em torno disso. Obviamente que o budismo foi apenas um conceito que aplicamos na experiência. E não vejo problema nenhum em fazer isso, muito pelo contrário. Da mesma maneira, por exemplo, cristãos convictos em um ambiente altamente sugestivo em elementos dessa tradição, teriam — muito provavelmente — tido uma epifania crística.
Sinto cada vez mais respeito por esse tipo de experiência. Creio ter me apressado ao fazer uma segunda sessão em tão pouco tempo. Acho que uma única experiência desse tipo valeria por toda a vida. A sensação que me dá após cada sessão é de que levarei essas memórias com muito carinho para vidas futuras.
Envie seu relato
Participe nos enviando um texto contando como foi sua experiência com alguma substância enteógena: Enviar relato de experiência
Categorias
Relatos em destaque
Outras novidades
-
BlogA fatalidade que aconteceu recentemente em Goiânia colocou a...
-
BlogEm termos de pesquisa psicodélica, parece que o LSD está voltando com...
-
ArtigosA entrevista a seguir foi publicada em uma edição temática da...
-
BlogEsse é o trailer do documentário "Manifesting the Mind", que reúne...

Comentários
evolução espiritual
Cara, que experiência foda!!! Que relato fantástico!!! Eu ainda não fiz a segunda... Ainda estou com muito do que me foi mostrado da primeira vez... Parece-me que a realização a respeito de mim mesmo num sentido de completa transcendência é a maior lição que tive em toda a minha vida. Mesmo sabendo de ensinamentos e escrituras que esse tipo de evolução vem com muita meditação e recolhimento, no mundo moderno, a possibilidade de conseguir isso somente com 10 minutos de contato com uma substância completamente orgânica é extraordinário, como Wade Davis (http://www.ted.com/talks/wade_davis_on_endangered_cultures.html) tentando imaginar como os índios da amazônia descobriram que a mistura de dois cipós resultaria na substância que traz uma sensação completamente diferente do que as duas substâncias em separado.