Blog Enteógenos

Morte com ayahuasca

A fatalidade que aconteceu recentemente em Goiânia colocou a ayahuasca na seção policial do noticiário, infelizmente.

Para quem não sabe do que se trata, segue o link da notícia:

O Globo | Polícia de Goiás investiga morte de universitário após tomar chá do Santo Daime

Pessoalmente, lamento muito a perda da vida daquela pessoa. Acho importante não esquecermos que estamos falando da morte de alguém. Em meio a toda polêmica que se levanta novamente sobre o chá, às vezes parece que esquecemos isso.

O que mais me chamou a atenção foi algo já bem conhecido: a falta de informações sobre o chá por parte da mídia, e até da polícia nesse caso.

Já é conhecido e comprovado há mais de 15 anos que o chá é inofensivo à saúde:

Achei meio estranho levantarem dúvidas sobre possíveis efeitos nocivos da ayahuasca, com tantos estudos científicos que já provaram a inexistência deles.

Acredito sim que a morte deva ser investigada, mas o modo — sensacionalista, pra variar — como foi noticiada lembrou até aquelas reportagens preconceituosas dos anos 60/70 no Brasil, quando o chá era algo bem misterioso, assim como as chamadas "seitas" em torno dele.

No entanto, uma fatalidade desse tipo é uma boa oportunidade de reflexão para os grupos que lidam com o chá. Por exemplo, permitir que alguém que corre risco de morte súbita — por rompimento da aorta ou falência dos pulmões — participe dos rituais é assumir um risco.

Não tenho certeza se os responsáveis desse grupo conheciam exatamente o risco que estavam correndo. Mas, a princípio, não acho que eles tenham errado. Um dos responsáveis diz nessa entrevista para a Record

http://noticias.r7.com/brasil/noticias/jovem-morre-apos-tomar-cha-alucin...

que tanto a mãe quanto o médico do rapaz autorizaram a participação nos rituais. Nesse caso, o que os responsáveis do grupo deveriam fazer? Imagino que tenham aceitado por desconhecer todas as complicações médicas que poderiam surgir.

Talvez teria sido melhor se o grupo tivesse elaborado um termo especial de responsabilidade, com assinatura do médico e da família. Pois a impressão que fica nessa história é que a família sabia que havia risco de morte (não especificamente no ritual, mas a qualquer momento) e que assumiu o risco.

Já ouvi pelo menos uma história parecida, de morte durante um trabalho com o chá, por complicações cardíacas. Já histórias que não envolvem morte, mas surtos devido a distúrbios mentais ou mistura com remédios psiquiátricos são bem mais frequentes.

Penso que esse realmente é um ponto fraco dos grupos que lidam com a ayahuasca. Precaução com pessoas que sofram de problemas de saúde nunca é demais e, às vezes, falta mesmo.

Velha polêmica
Essa triste notícia inevitavelmente também levantou uma velha polêmica: é válido usar um "alucinógeno" em um caminho espiritual?

Esse é um assunto bem longo, uma discussão quase sem fim. Mas sempre me surpreende a paixão dos opositores da ayahuasca e dos enteógenos em geral. Tenho a impressão que eles são mais proselitistas do que os próprios ahuasqueiros, ou seja, fazem mais barulho defendendo a causa contra o chá, do que os que bebem fazem a favor.

Gostaria de entender de onde vem essa oposição tão forte.

O uso do chá como sacramento religioso no Brasil já está devidamente regulamentado e aprovado. Assim, nesse contexto, as pessoas ficarem falando mal da ayahuasca e de quem faz uso dela — com argumentos mal informados e maliciosos — não é muito diferente de quando um grupo critica a fé ou a cultura de outro grupo.

Por isso, acho que uma posição mais construtiva é termos mais paciência com os intolerantes. Quem já entrou num debate desse tipo conhece o nível dos argumentos e se não tomamos cuidado, quando nos damos conta, já descemos pro mesmo patamar. Não vale a pena ficar batendo boca com quem já entra no debate fechado e irredutível, armado com inimizade. Mas se tivermos que entrar, entremos com tudo que falta do outro lado: compreensão, tolerância e amizade.

LSD no canal National Geographic

Em termos de pesquisa psicodélica, parece que o LSD está voltando com tudo:

Já era tempo! Afinal, mais de 40 anos se passaram desde que o LSD foi criminalizado e as pesquisas, suspensas — em meio ao furacão hippie.

Entre as notícias recentes, a mais legal é o documentário da National Geographic, que foi ao ar no começo deste mês nos EUA:

Veja a continuação no link abaixo (as outras partes aparecem linkadas em "Vídeos relacionados"):

National Geographic Explorer - Inside LSD

Manifesting the mind

Esse é o trailer do documentário "Manifesting the Mind", que reúne entrevistas bem interessantes com os principais especialistas da área.

Há uma versão mais longa (de 10 minutos aqui):

Manifesting the Mind DVD Sneak Preview.

Achei bem instigante a parte que eles abordam enfaticamente a "perda do ego", pra mim a coisa mais gratificante que pode acontecer em uma experiência psicodélica, se bem aproveitada e compreendida (vide o texto Vislumbre da ilusão do eu).

Esse é um fator tão comum que deveriam criar um sub-disciplina só sobre isso dentro da pesquisa sobre enteógenos, já que se trata nada mais nada menos do que -- o que parece ser -- a experiência direta da realidade verdadeira, para a qual as religiões dão vários nomes.

A atuação da percepção e consciência sem o filtro do ego é um assunto que o budismo trata também com muito carinho. Era a isso que Buda se referia ao falar sobre "sunyata" (vacuidade)? Outros santos e místicos pela história também vivenciaram isso, sem enteógenos, e as descrições são todas muito parecidas (dentro do assunto, vale ler "Filosofia Perene", Aldous Huxley; e "Variedades da Experiência Religiosa", William James).

Links novos e instigantes!

Bom, voltando ao vídeo, o site oficial está aqui: www.manifestingthemind.com. Achei legal porque esse site me levou para diversos links interessantíssimos que nunca tinha visto:

Dois artigos do livro esgotado "Zig Zag Zen", sobre budismo e psicodélicos:

Além de mais material dentro do tema psicodélicos e budismo:

Ufa, acho que é isso! Infelizmente, tudo em inglês. Mas penso em traduzir algumas coisas dessa lista.

Consumo irresponsável

Saiu na revista Veja desta semana uma reportagem sobre drogas em baladas (não achei a matéria no site da revista pra linkar).

A força da reportagem está nos depoimentos anônimos. Jovens dizendo como se "acabam" na noite misturando LSD, Ecstasy, Ketalar… Com certeza choca o leitor não muito versado nesse assunto.

Mas a notícia em si tem pouca novidade. Pessoas usam essas drogas em festas e clubes há anos… E sempre há os tipos meio suicidas, como os que a revista foca. Mas eles não são maioria.

Talvez a única novidade (nem tão novidade assim) seja a história de estarem misturando coquetéis anti-HIV e Viagra com os psicoativos -- se é que não se trata de casos bem isolados (que podem deixar de ser tão isolados devido à própria reportagem).

Não gostei muito da matéria por ela fazer sensação, em cima de algo que nem é novo. Claro que acho deprimente e alarmante o modo como as pessoas destroem seus cérebros e corpos com esse monte de drogas na noite. Não só deprimente, mas deplorável, coisa muito triste mesmo.

Mas há efeitos negativos nesse tipo de reportagem também. São conhecidos no mundo todo: recrudescimento da vigilância, disseminação maciça de desinformações, ações punitivas, novas proibições, medo infundado... Medidas policiais com resultado muito ínfimo em termos de melhoria real.

Jornalismo
O sensacionalismo é uma praga que está além do repórter. Editores e executivos pressionados por vendagem e outros fatores acabam sendo os responsáveis, não o autor da reportagem. E fico me perguntando se não é esperar demais que jornalistas abordem seus assuntos de maneira mais bem informada, nesse caso.

Por exemplo, dizer que Salvia Divinorum é uma "versão natural" de LSD? Não lembro exatamente a expressão, mas foi algo assim. Para quem conhece esses enteógenos, isso é um absurdo. Mas para um jornalista que está pesquisando pela primeira vez o assunto, a toque de caixa, sair com uma dessas… Acho que é o máximo que poderia sair mesmo dadas as circunstâncias.

Essa desinformação está num quadro que critica a venda online de substâncias ainda não proibidas no Brasil. Esse é outro ponto que seria fácil de criticar:

-- Pô, eles deduram os sites, as substâncias... Depois, criminalizam tudo e como nós -- os experimentadores "responsáveis" -- ficamos?

Mas há outros fatores nessa situação, que fazem a questão ir muito além desse ingênuo questionamento.

Pessoalmente, já comprei algumas coisas em "headshops" quando morava fora do país. E pela web aqui no Brasil também. Ou seja, me classificariam como um consumidor. O problema é que há muitos riscos nesse tipo de venda "legalizada".

2C-B letal
Por exemplo, agora em outubro, na Europa, pessoas foram hospitalizadas e pelo menos uma morreu (na Dinamarca), vítimas de 2C-B mal feito. 2C-B é um alucinógeno sintético vendido legalmente em "headshops" (no Brasil, que eu saiba não há isso ainda).

Information on Reported Deaths Related to 2C-B-fly

If you have ordered 2C-B-fly from Haupt-RC, then your life may be in danger

Ten in hospital after 2C-B rave

O que acontece é que as coisas vendidas legalmente em "headshops" do exterior ou "sites de botânica" são beeeem psicoativas sim! Às vezes, mais potentes que drogas ilegais.

Na Europa, esses estabelecimentos andam vendendo "drogas legais" sintetizadas até na China, sabe-se lá em que condições. A seguinte reportagem do Guardian aborda bem a questão:

Guardian | The rise and rise of legal highs

Perigo online
No caso de coisas que podem ser adquiridas na web em solo brasileiro, já me passou pela cabeça várias vezes:

- O que acontece com o adolescente frequentador de raves que compra algumas sementes de Argyreia nervosa, por exemplo, toma e vai para a balada?

A chance de isso acabar muito mal é gigantesca. Argyreia é um enteógeno poderosíssimo!! Eu jamais recomendaria alguém consumir isso em um ambiente de festa (aliás, quase em nenhuma situação). Basta olhar os relatos no Erowid. Não é a toa que a maioria absoluta fala em "bad trips infernais de 10 horas de duração", já que essa maioria é de gente consumindo de maneira irresponsável, sem o devido cuidado com o "set-setting".

Enfim, esse post acabou ficando muito maior do que imaginava.

Mas o que queria dizer com ele basicamente é:

Como diz o "Sobre" deste site, aqui não temos qualquer relação com o uso de alucinógenos em festas e baladas. Esse é realmente um problema de saúde pública, devido aos danos físicos e mentais que provoca, incluindo morte.

Como tentar reduzir os danos? Não sei. Redução de danos é uma área que conheço pouco, mas acredito que as pessoas precisam se informar melhor sobre o que estão consumindo. Sobre os perigos. O problema é que é ingenuidade esperar saber o que você realmente está consumindo quando se trata de substâncias de uma cadeia de produção-distribuição criminosa.

Não há como saber. Então, o mais seguro é não se envolver com coisas ilegais, e tomar muito cuidado com coisas supostamente "legalizadas". Não é carolice. É questão prática mesmo, de saúde e sobrevivência.

Notícia positiva sobre LSD

Engraçado -- e profundo -- esse comediante Bill Hicks!

"Hoje um jovem sob efeito de ácido compreendeu que toda matéria é meramente energia condensada em uma vibração lenta.

Somos todos uma única consciência vivenciando a si mesma de maneira subjetiva.

Não há essa coisa de morte, a vida é apenas um sonho, e somos a imaginação de nós mesmos..."

(via Dosenation)

Abraçador de árvore

imagem: 

(post dentro do Blog Action Day de hoje, sobre mudanças climáticas)

Nunca fui muito adepto de causas ecológicas. Mas nos últimos quatro anos, me converti. Não sei se devido à maior exposição na mídia nesse assunto, da ameaça cada vez mais gritante e inegável de um futuro inóspito no planeta.

Isso deve ter contribuído. Mas o principal mesmo foram sessões com ayahuasca.

A seguinte cena já até faz parte da cultura pop: a pessoa ingere algum psicodélico em meio à natureza e sai abraçando árvores.

O blog "verde" de maior sucesso hoje, o treehugger.com, faz até referência a isso em seu nome: "abraçador de árvore".
 
Eu nunca fiz isso, mas vontade jamais faltou. Não só as árvores, mas tudo que é vivo. O que acontece é que em meio à natureza, sob efeito enteógeno, o verde obviamente enche os olhos, te envolve, fala com você, te reflete, te lembra de onde viemos...

Nunca fiz isso exteriormente por ver algumas vezes que esse abraço já existe o tempo todo. Não temos como nos separar dele.

Mas não é preciso necessariamente estar em meio ao verde durante uma experiência para sentir isso. Por exemplo, depois, nos dias seguintes, sempre fiquei magnetizado por tudo que é planta. A cor verde parece que fica mais viva. É um efeito colateral permanente.

Se conectar mais com a natureza inegavelmente é um efeito de enteógenos em geral. Já senti essa "força de união" também de modo bastante pronunciado com psilocibina e LSA.

Obviamente não é preciso nenhum enteógeno para compreender a importância da harmonia com o meio ambiente natural. Basta pensar um pouco, ter bom senso -- coisa que tá faltando hoje.

Mas para mim, foi preciso algo radical assim pra me fazer acordar de minha ilusão mesquinha e egoísta.

Abracemos não só árvores, mas a vida na Terra, que são nossas vidas.

Carl Sagan "alterado"

imagem: 

Não sabia que Carl Sagan (autor de "Contato", que virou filme com a Jodie Foster) gostava de maconha. Mas desconfiava que alguns de seus insights tivessem surgido em estados alterados.

Surgiu na web um relato de 1969, escrito por um tal Mr. X, que hoje se atribui ao astrônomo:

Boing Boing | Carl Sagan, spaced out on pot (em inglês)

Não considero canabis um enteógeno, devido à banalização do uso e pelos anos de dependência psicológica que enfrentei, com pouca coisa de positiva.

Mas respeito outras opiniões. E o modo como Sagan descreve suas experiências... Parece que ele está falando de um enteógeno de fato.

Obviamente, o fato de se descobrir que ele era meio que um "maconheiro" não o diminui em nada. Acho que é mais o contrário. 

Aproveitando, recomendo um livro que estou lendo do mesmo autor:

"Variedades da Experiência Científica" (Cia das Letras, 2008)

O título é um trocadilho com o clássico "Varieties of the Religious Experience", de William James. Aborda a similaridade entre as buscas espiritual e científica, com muito da riquíssima experiência pessoal do autor nos dois campos.

Vendo esse título na livraria não resisti ao impulso, por ser bem fã do modo como Sagan evangelizou cientificamente as mentes de muitas pessoas (eu entre elas). Digo "evangelizou" pela maneira como ele fazia isso, com profunda reverência, quase devoção, aos mistérios do universo e da vida.

Recuperação com ayahuasca

Reportagem recente sobre uso de ayahuasca na recuperação de moradores de rua em SP:

Revista Trip | Saindo da lama - Advogado que virou xamã cria fórmula para curar viciados em crack e álcool de São Paulo

 

A poção de Hoffman

Um documentário bem legal sobre Albert "LSD" Hoffman:

http://www.nfb.ca/film/hofmanns_potion/

Via Psychedelic Medicine News.

(vai aqui um parêntesis que só caberia num blog mesmo: trata-se de um documentário do "National Film Board of Canada". Esse nome foi o que inspirou o nome da dupla de música eletrônica "Boards of Canada". Percebi isso porque ultimamente não me sai da cabeça o sensacional clip de "Dayvan Cowboy")

Novo site no ar

em

Pronto! Acabei de migrar o antigo blog Enteógenos para cá.

Por enquanto, é só uma reprodução do conteúdo antigo, de modo um pouco mais organizado.

Ainda há muitos detalhes a arrumar. Aos poucos vou fazendo. Mas já dá pra se dizer que temos um novo site aqui!!

Mais pra frente, termino o sistema para as pessoas se logarem e enviarem conteúdo. Penso também em expandir o conteúdo, com parcerias de outros blogs. Vamos ver...

(^_^)v

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