Saiu na revista Veja desta semana uma reportagem sobre drogas em baladas (não achei a matéria no site da revista pra linkar).
A força da reportagem está nos depoimentos anônimos. Jovens dizendo como se "acabam" na noite misturando LSD, Ecstasy, Ketalar… Com certeza choca o leitor não muito versado nesse assunto.
Mas a notícia em si tem pouca novidade. Pessoas usam essas drogas em festas e clubes há anos… E sempre há os tipos meio suicidas, como os que a revista foca. Mas eles não são maioria.
Talvez a única novidade (nem tão novidade assim) seja a história de estarem misturando coquetéis anti-HIV e Viagra com os psicoativos -- se é que não se trata de casos bem isolados (que podem deixar de ser tão isolados devido à própria reportagem).
Não gostei muito da matéria por ela fazer sensação, em cima de algo que nem é novo. Claro que acho deprimente e alarmante o modo como as pessoas destroem seus cérebros e corpos com esse monte de drogas na noite. Não só deprimente, mas deplorável, coisa muito triste mesmo.
Mas há efeitos negativos nesse tipo de reportagem também. São conhecidos no mundo todo: recrudescimento da vigilância, disseminação maciça de desinformações, ações punitivas, novas proibições, medo infundado... Medidas policiais com resultado muito ínfimo em termos de melhoria real.
Jornalismo
O sensacionalismo é uma praga que está além do repórter. Editores e executivos pressionados por vendagem e outros fatores acabam sendo os responsáveis, não o autor da reportagem. E fico me perguntando se não é esperar demais que jornalistas abordem seus assuntos de maneira mais bem informada, nesse caso.
Por exemplo, dizer que Salvia Divinorum é uma "versão natural" de LSD? Não lembro exatamente a expressão, mas foi algo assim. Para quem conhece esses enteógenos, isso é um absurdo. Mas para um jornalista que está pesquisando pela primeira vez o assunto, a toque de caixa, sair com uma dessas… Acho que é o máximo que poderia sair mesmo dadas as circunstâncias.
Essa desinformação está num quadro que critica a venda online de substâncias ainda não proibidas no Brasil. Esse é outro ponto que seria fácil de criticar:
-- Pô, eles deduram os sites, as substâncias... Depois, criminalizam tudo e como nós -- os experimentadores "responsáveis" -- ficamos?
Mas há outros fatores nessa situação, que fazem a questão ir muito além desse ingênuo questionamento.
Pessoalmente, já comprei algumas coisas em "headshops" quando morava fora do país. E pela web aqui no Brasil também. Ou seja, me classificariam como um consumidor. O problema é que há muitos riscos nesse tipo de venda "legalizada".
2C-B letal
Por exemplo, agora em outubro, na Europa, pessoas foram hospitalizadas e pelo menos uma morreu (na Dinamarca), vítimas de 2C-B mal feito. 2C-B é um alucinógeno sintético vendido legalmente em "headshops" (no Brasil, que eu saiba não há isso ainda).
Information on Reported Deaths Related to 2C-B-fly
If you have ordered 2C-B-fly from Haupt-RC, then your life may be in danger
Ten in hospital after 2C-B rave
O que acontece é que as coisas vendidas legalmente em "headshops" do exterior ou "sites de botânica" são beeeem psicoativas sim! Às vezes, mais potentes que drogas ilegais.
Na Europa, esses estabelecimentos andam vendendo "drogas legais" sintetizadas até na China, sabe-se lá em que condições. A seguinte reportagem do Guardian aborda bem a questão:
Guardian | The rise and rise of legal highs
Perigo online
No caso de coisas que podem ser adquiridas na web em solo brasileiro, já me passou pela cabeça várias vezes:
- O que acontece com o adolescente frequentador de raves que compra algumas sementes de Argyreia nervosa, por exemplo, toma e vai para a balada?
A chance de isso acabar muito mal é gigantesca. Argyreia é um enteógeno poderosíssimo!! Eu jamais recomendaria alguém consumir isso em um ambiente de festa (aliás, quase em nenhuma situação). Basta olhar os relatos no Erowid. Não é a toa que a maioria absoluta fala em "bad trips infernais de 10 horas de duração", já que essa maioria é de gente consumindo de maneira irresponsável, sem o devido cuidado com o "set-setting".
Enfim, esse post acabou ficando muito maior do que imaginava.
Mas o que queria dizer com ele basicamente é:
Como diz o "Sobre" deste site, aqui não temos qualquer relação com o uso de alucinógenos em festas e baladas. Esse é realmente um problema de saúde pública, devido aos danos físicos e mentais que provoca, incluindo morte.
Como tentar reduzir os danos? Não sei. Redução de danos é uma área que conheço pouco, mas acredito que as pessoas precisam se informar melhor sobre o que estão consumindo. Sobre os perigos. O problema é que é ingenuidade esperar saber o que você realmente está consumindo quando se trata de substâncias de uma cadeia de produção-distribuição criminosa.
Não há como saber. Então, o mais seguro é não se envolver com coisas ilegais, e tomar muito cuidado com coisas supostamente "legalizadas". Não é carolice. É questão prática mesmo, de saúde e sobrevivência.
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