Escrevo aqui neste blog de forma mais ligeira e opinativa — Enteo, responsável pelo enteogenos.org. O que significa Amrita?

Amrita

Trailer: Stepping Into The Fire

Trailer de um documentário sobre ayahuasca que parece interessante. Destaque para o Sigur Rós na trilha.

(via Bia Labate)

A verdadeira psicodelia do Gênesis

O fruto proibido é um psicodélico? Não, é algo que põe fim ao estado enteógeno em que se encontravam

Fazia algum tempo que queria escrever um post sobre a história do Éden bíblico, e a "origem do mundo". Na verdade, é mais uma divagação estilo "teoria de bar". É que várias coisas têm me levado a pensar nisso. Por exemplo:

  • Esse post, que contém uma metáfora sobre a origem do mundo
  • Li também (não acho mais onde foi que vi isso) um diálogo entre Aldous Huxley e Timothy Leary, sobre a teoria de que o mundo começa com uma lei antidrogas (a proibição sobre o fruto da árvore do Éden)
  • Esse trailer de documentário também faz o paralelo de que o fruto proibido seria uma droga psicodélica
  • Essa instigante conferência na California, Science & Nonduality, que também vai abordar enteógenos, tem tudo a ver com o tema

Mas o que tudo isso tem em comum e qual a relação com enteógenos?

Pecado original

Primeiro a história do Éden. Não partilho da opinião de que o fruto proibido seria um enteógeno. Acho que é bem o contrário, esse fruto é um anti-enteógeno. Adão e Eva já se encontravam em um estado de completa unidade. O efeito do fruto da "árvore do conhecimento do bem e do mal" é que acaba com essa unidade.

Depois de comer, eles passam a ficar envergonhados da nudez. Por isso também Deus diz que "no momento em que comer o fruto, sua morte está marcada". Mas o efeito principal é a expulsão do paraíso.

Sempre achei misteriosa e meio absurda a noção de pecado original. Mas se examinarmos minuciosamente podemos ver que a história tem algum sentido.

Um pecado, ou seja, um crime, um erro de proporções monumentais, estaria na origem da história humana, segundo a bíblia. E ele não só está em nossa origem como até hoje sofremos por isso! Que pecado seria esse?

Sexo? Curiosidade? Rebeldia? Desobediência?

Não, não, nada disso. O grande erro é cair na dualidade, penso. Sair do estado de unidade plena, união mística, e passar a fazer distinções mentais dualistas: bem e mal, vestido e nu, trabalho e descanso, Deus ali eu aqui...

Valeu Hempadão

Valeu pela indicação galera do Hempadão!

Achei bem engraçado o fato de alguém lá nos comentários dizer que nós "enteogenistas fanáticos" deveríamos ler mais sobre outras religiões (valeu aí pela defesa Fernando!).

Sim, realmente devo ler mais sobre outras religiões. É um conselho que se todos seguissem, haveria menos intolerância.

Por exemplo, sobre uma religião monoteísta cristã, que valoriza o estudo das escrituras, cujo sacramento é uma erva. Muita gente pega a parte da erva e descarta o restante da doutrina, que prega o amor, a paz, a convivência harmoniosa...

Não sou dessa religião, mas admiro esses preceitos: não vou xingar ninguém não.

Os elfos de Terence McKenna

em
"DMT Entity", de Roger Essig (2001)

Recentemente, um artigo criticando Terence McKenna provocou um belo bafafá lá no Reality Sandwich:

Terence on DMT: An Entheological Analysis of McKenna’s Experiences in the Tryptamine Mirror of the Self

A comunidade reagiu em massa criticando a "blasfêmia" do autor. O artigo é praticamente um livro. Não sei se vale a pena o esforço. Acabei lendo até o final, mas me arrependi — o texto começa bem, mas depois fica óbvio que o próprio autor está numa viagem pessoal intensa.

No entanto, o debate central é bem interessante. A questão é:

As "entidades" que aparecem em visões de DMT existem ou são só projeções psicológicas?

Não sei. Já Terence McKenna acreditava que esses seres existem mesmo e criou praticamente a cosmologia dos "self-transforming-machine-elves", algo como "elfos máquinas auto-transformadores", seres em formato de bola de basquete com a capacidade de criar coisas com os sons que emitem, segundo McKenna via. E isso influenciou muita gente.

Achei o artigo inicialmente interessante porque nunca tinha visto essa visão ser criticada assim tão abertamente dentro do próprio meio psicodélico. Para mim, apesar de já ter sido influenciado pela cosmologia dos elfos-máquinas, sempre desconfiei que isso pudesse ser uma mega-viagem delirante, achando um despropósito ficar atribuindo tanto significado a um conteúdo visionário pessoal.

Já vi algumas pessoas entrando em viagens negativas desse tipo. Digo negativas porque a pessoa sai da realidade ao se fixar muito nos supostos espíritos ou alienígenas que aparecem para ela. Às vezes, a fixação é tanta que a pessoa não percebe que nada de positivo está sendo acrescentado em sua vida: não há mudanças, só o aumento de uma tendência à alienação que já existia (em alguns casos, sendo necessária a intervenção médica).

A triste história de Carlos Castaneda

Esse documentário da BBC é bem interessante: desmistifica a obra do famoso escritor. Fiquei meio chocado, não sabia que se tratava de um exemplo tão gritante de charlatanismo. Pensava que ele era apenas um escritor de ficção que, de maneira meio duvidosa, tentava passar um ar de "fatos verídicos", no estilo Lobsang Rampa.

É um bom alerta de que não bastam conceitos bonitos e uma embalagem convincente. Se bastassem, redatores e oradores talentosos seriam os gurus, né? O pior é que são...

Dá para ver todas as oito partes do programa no blog do Plantas Enteógenas.

Problemas no site

Nos últimos dias, está havendo instabilidades no site, como páginas não encontradas e erros no servidor. Na medida do possível, estamos tentando corrigir.

Se alguém estiver enfrentando algum problema persistente, que não se resolve mesmo depois de algum tempo, deixe um comentário, que examino com mais atenção.

Aspectos legais dos enteógenos no Brasil

Nota do editor: enquanto não temos um blog apenas para isso, publico aqui um texto enviado por um amigo e colaborador assíduo.


por Rafael Roldan

Este texto destina-se a elucidar questões legais importantes na área de enteógenos e psiconáutica no Brasil. É certo que pela Declaração Universal dos Direitos Humanos “toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião”.

Independentemente de religião, isso inclui a liberdade de alterar seu pensamento e sua consciência por meio de quaisquer métodos, entre eles o uso dos psicodélicos, enteógenos, alucinógenos ou outras nomenclaturas que designem substâncias de origem animal, vegetal, fúngica ou sintética que provoquem alterações no funcionamento usual dos neurônios.

Vale ressaltar que não se está a falar aqui de drogas com potencial de abuso, como a cocaína ou a heroína. Isto não apenas porque elas se enquadrariam em outras classificações clínicas, mas principalmente porque as mesmas divergem totalmente do contexto que se busca contemplar aqui. Estas drogas são verdadeiras fontes de envenenamento do corpo, geram problemas sociais profundos e gastos exorbitantes da saúde pública.

No entanto, mesmo estas não deveriam ser proibidas, mas, sim, reguladas. Isso porque a guerra contra o narcotráfico já se mostrou falida, perpetuando justamente aquilo que busca combater. A regulamentação permitira que se criasse uma nova indústria, novos postos de trabalho, uma riquíssima fonte de impostos e, mais importante, os viciados teriam algum respaldo digno para saírem à luz do dia e procurarem tratamento.

Documentário: "From neurons to nirvana"

Trailer do documentário "From Neurons to Nirvana".

(via Bia Labate)

Ajuda para tradução

Estou pensando em traduzir o artigo "How to Treat Difficult Psychedelic Experiences", da MAPS (o artigo em questão aparece ao clicar no botão + ao lado do título).

Apesar de não ser um artigo longo, quero saber se haveria alguém disponível para ajudar na tarefa.

abs

E a desinformação continua...

O projeto do deputado Paes de Lira de proibir a ayahuasca ganha agora contornos insólitos:

iG | Rituais do Daime escondem uso de drogas

Lendo essa reportagem, a primeira dúvida que vem para pessoas familiarizadas com a ayahuasca é:

— Federação Nacional da Ayahuasca??! Mas que entidade é essa que ninguém nunca ouviu falar?!!

Pesquisando um pouco [vejam este vídeo, por exemplo] dá para constatar que é uma instituição ligada a uma pessoa polêmica, pra dizer o mínimo; famosa por seus ataques ao Cefluris (instituição religiosa popularmente conhecida como Santo Daime). Sabendo isso, aí tudo se explica.

Não entro nessa briga, pois não há por que brigar. Ainda mais neste momento tão delicado.

Mas é uma cena mesmo muito insólita: uma entidade que se diz representativa dos ayahuasqueiros brasileiros brigando em público com duas das maiores tradições de ayahuasca do país. Fica mais surreal ainda porque essa é uma entidade que não podemos nem de longe chamar de representativa. Cena não apenas insólita, mas triste, muito triste. Não é nada agradável constatar a espiral descendente em que essa história toda está se transformando.

A cobertura do assunto por pessoas que não conhecem o universo que estão abordando causa distorções incríveis como essa. Pessoas vão levar a sério essas acusações, já que não houve contextualização e mais informações sobre a origem delas.

Não que os possíveis problemas que podem haver nas igrejas não devam ser tratados, mas esse tipo de agressão em público envolvendo ahuasqueiros é uma coisa que prejudica a todos nós.

Syndicate content