Entrevista com Jack Kornfield

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A entrevista a seguir foi publicada em uma edição temática da Tricycle — revista norte-americana sobre budismo — inteira sobre a relação de substâncias psicodélicas com o budismo (leia mais em "Psicodélicos e budismo").

Nela, o professor de meditação mostra sua enriquecedora visão sobre o assunto, dando conselhos práticos sobre como uma prática espiritual regular pode tornar mais proveitosa uma experiência enteógena.

Sobre o entrevistado
Nascido em 1945 nos EUA, Jack Kornfield está entre os mais conhecidos instrutores de vipassana (linhagem Theravada) hoje. Se alinha também em uma corrente nova do budismo nos EUA, chamada de "budismo pragmático", que enfatiza a prática de meditação em detrimento de ritualismos e culturalismos. Kornfield começou a estudar meditação com o mestre Ajan Chah em 1967, na Tailândia. Ensina desde 1974. Tem doutorado em psicologia clínica.

Reinos do consciência

Uma entrevista com Jack Kornfield

Jack Kornfield, autor de "A Path With Heart" (Bantam), ensina Vipassana no Spirit Rock Center, em Woodacre, California. Essa entrevista foi feita primeiramente por Robert Forte — antigo estudante do budismo e pesquisador acadêmico independente de história e psicologia da religião — em 3 de fevereiro de 1986 (em San Anselmo, California) e depois, revisada para a Tricycle em 1996.

Existe um ponto de vista budista sobre psicodélicos?

Não. Psicodélicos são encontrados raramente — se é que são — na tradição budista, e no geral cairiam nos preceitos dentro da categoria "intoxicantes". Nas tradições Zen, Vajrayana e Theravada há bem pouca menção a eles e não há um ponto de vista tradicional sobre seu uso. É importante compreender isso. Os pontos de vista que temos vêm da compreensão de mestres budistas e professores, baseada na experiência contemporânea.

O preceito no budismo Theravada para lidar com intoxicantes é um dos cinco preceitos do treinamento básico para uma vida sábia: não matar, não roubar, não mentir, não se engajar em conduta sexual que cause sofrimento e, por último, evitar o uso de intoxicantes que causem negligência ou perda da consciência. Uma tradução alternativa diz "não usar qualquer substância que distorça o estado de atenção". Então fica a cargo do indivíduo, assim como em todos os preceitos, usar essas diretrizes para se tornar mais genuinamente consciente.

Os preceitos são compreendidos de modo similar no Oriente e no Ocidente?

É mais fundamental praticá-los no Oriente. Lá você tradicionalmente começa com "shila", ou ação compassiva. Esse compromisso de não causar dano é a fundação sobre a qual a vida espiritual se constrói. É universalmente compreendido o fato de que você não consegue meditar adequadamente após um dia mentindo e roubando! Para libertar o coração do embaraçamento na cobiça, medo, ódio e ilusão, uma relação não-violenta com o mundo precisa ser desenvolvida. A partir dessa base de conduta compassiva cresce toda uma gama de práticas meditativas e espirituais.

Como isso funcionaria?

Ao viver uma vida compassiva e harmoniosa, você já começou a silenciar a mente e abrir o coração. Daí, o segundo domínio é treinar a si através de meditações, visualizações e práticas de yoga que domam a selvagem mente-macaco. É o poder dessas práticas que dissolve as barreiras da mente, a identificação com nossa pequena idéia do eu. Elas unificam corpo, coração e mente através da concentração, e nos destravam para vastos reinos interiores.

O terceiro domínio é o surgimento da sabedoria, ou prajna. Baseada na fundação de uma vida compassiva com treino em meditação, a consciência se torna clara e aberta. A sabedoria surge e vemos toda a natureza de como a consciência cria o mundo, e descobrimos liberdade e o grande coração de um Buda em meio a tudo isso. Com essa fundação de conduta sábia e treinamento interior, você tem um contexto para a sabedoria mais profunda e ele está naturalmente integrado em sua vida. O que tem acontecido no Ocidente parece ser uma inversão disso.

Uma inversão? O que você quer dizer?

Muitas pessoas que tomaram LSD, cogumelos e outros psicodélicos — frequentemente junto com leituras do “Livro Tibetano dos Mortos” ou algum texto zen — tiveram abertos os portões da sabedoria em algum grau. Eles começaram a ver que suas consciências limitadas eram apenas um dos níveis e que havia milhares de novas coisas a se descobrir sobre a mente. Eles viram diversos novos reinos, tiveram novas perspectivas sobre nascimento e morte, e descobriram a natureza da mente e a consciência como um campo de criação ao invés de uma consequência mecânica do corpo. Alguns se abriram para além da ilusão de separação, rumo à verdade da unidade das coisas.

Mas, para manter essa visão, eles tiveram que continuar consumindo psicodélicos mais e mais. Mesmo que houvesse algumas transformações a partir dessas experiências, elas tendiam a irem se apagando para a maioria das pessoas. Depois disso, alguns diziam: “Se não podemos manter a elevação da consciência que vem com os psicodélicos, vamos ver se há alguma outra maneira”. E então passaram por diversos tipos de disciplinas espirituais. Fizeram kundalini yoga e respiração bastrika, ou praticaram seriamente hatha yoga como sadhana, raja yoga, mantra e exercícios de concentração, visualizações ou práticas budistas, como uma maneira de trazer de volta aquelas profundas experiências e estados que chegaram por meio de psicodélicos.

Você quer dizer que isso inspirou nas pessoas uma sede por experiência?

Uma sede, é isso mesmo.