Psicodélicos são úteis na prática do budismo?

Myron J. Stolaroff
Myron J. Stolaroff

Publicado no “Journal of Humanistic Psychology”, volume 39, nº 1, inverno de 1999, págs 60-80, Sage Publications, Inc
(original em inglês: http://www.hofmann.org/papers/Buddhist-JHP.html.
Obrigado Fernando, por ajudar na tradução)


SOBRE O AUTOR
Myron J. Stolaroff se graduou em engenharia elétrica pela Stanford University. Na indústria, alcançou a posição de assistente presidencial para planejamento de longo prazo na Ampex Corporation. Nesse contexto técnico-científico, ele declarou – após sua primeira experiência com LSD, em 1956 – que a substância era a mais importante descoberta da humanidade. Em 1961, fundou a International Foundation for Advanced Study, em Menlo Park (Califórnia), onde pesquisas com LSD e mescalina foram conduzidas por 3 anos e meio, envolvendo cerca de 350 participantes e resultando em seis relatórios técnicos. Trabalho adicional foi feito após 1970 com diversos derivados de fenetilamina não-ilegais, até a Lei de Drogas Análogas de 1986 [EUA]. Stolaroff tem interesse especial em como o conhecimento adequado sobre psicodélicos pode aprimorar a prática de meditação. Ele é autor de dois livros, assim como diversos relatórios científicos sobre psicodélicos.

RESUMO
Na edição de outono de 1996 da revista budista “Tricycle”, diversos professores de meditação budista comentaram sobre o valor de experiências psicodélicas. As opiniões variaram do nível de apoio até a intenção prejudicial. Aqui, o autor espera clarificar esses pontos de vista conflitantes ao descrever aspectos importantes na aplicação de psicodélicos, que devem ser levados em conta para a produção de resultados eficazes. Isso envolve uma metodologia adequada, que inclui: boa combinação de ambiente e condição, dosagem, substâncias apropriadas, intervalos adequados e a correta integração de cada experiência. O autor acredita que o uso bem-informado de psicodélicos é uma ferramenta valiosa para acelerar a proficiência e aprofundar a prática da meditação, e oferece recomendações para o uso bem-sucedido. Os comentários negativos de diversos professores de renome são avaliados para clarear o assunto da aplicação proveitosa de substâncias psicodélicas.

OBSERVAÇÃO DO AUTOR: Desejo expressar minha apreciação pela condução e edição da “Tricycle” em sua edição especial sobre psicodélicos e a todos os colaboradores pela intenção de apresentar suas opiniões sobre um assunto polêmico.


A revista budista “Tricycle” dedicou sua edição de outono de 1996 ao assunto “psicodélicos e budismo”. Os pontos de vista dos autores a respeito da eficácia de psicodélicos sobre a prática budista variaram desde um elevado nível de apoio até a oposição frontal. Quem se interessa pela possível aplicação de psicodélicos na prática meditativa poderia ficar bem confuso com tal diversidade de opiniões. Ainda assim, a resposta é simples. Psicodélicos podem ser usados em uma grande variedade de maneiras para uma enorme gama de possibilidades. Os resultados dependem bastante da experiência, conhecimento, habilidade e nível de desenvolvimento do praticante. Assim, a pessoa que apresenta seu ponto de vista particular pode estar bem informada, ou não, sobre as outras numerosas considerações envolvidas. Uma tendência desfavorável, pública e bem comum sobre psicodélicos tem sido criada por notícias especificamente escolhidas, como observado por Walsh (1982). Segundo Walsh aponta, essa tendência é tão desfavorável que um jornal de renome se recusou a aceitar um artigo que indicava frutos benéficos do uso de psicodélicos, a não ser que qualquer referência a consequências positivas fosse retirada. Espero jogar alguma luz sobre essa variedade de opiniões. Primeiramente, colocando o que julgo como fatores importantes a serem levados em conta no emprego eficaz de psicodélicos. A partir dessa perspectiva, podemos examinar alguns dos comentários expressos mais relevantes.

Agentes psicodélicos, quando bem compreendidos, estão provavelmente entre as ferramentes mais valiosas, úteis e poderosas para a humanidade. Mas seu uso é extremamente complexo. Isso significa que são amplamente mal compreendidos e, com frequência, ocorre uso abusivo.

Permita que eu seja mais claro: não é que psicodélicos sejam complexos. Em sua aplicação mais útil, eles cumprem um papel bem direto. Após 40 anos de estudo cuidadoso, minha observação é que uma das ações fenomenais dos psicodélicos é que eles permitem a dissolução dos mecanismos da mente. Um dos mais poderosos mecanismos da mente empregados por humanos é o ocultamento de coisas da consciência. Então, uma função muito importante das substâncias psicodélicas é permitir acesso à mente inconsciente. A mente inconsciente é amplamente complexa e possui uma gama bem ampla de características. Desde material reprimido e doloroso até a sublime realização do amor universal. Provavelmente nunca terminaremos de descobrir novos aspectos e dimensões da mente, já que ela aparenta ser infinita. Estou convencido que a busca contínua revelará novas descobertas.

Provavelmente, toda teoria que qualquer cientista, terapeuta ou místico concebeu, no final, é adequada somente para um grupo de condições – desde teorias sobre a dinâmica psicológica até a natureza última do universo. Uma das coisas mais memoráveis para o usuário psicodélico experiente é descobrir como os limites da percepção se dissolvem, permitindo a visão de novas imagens, sensações, conceitos e realizações. Mas o grande problema repousa na aplicação das descobertas para que o modo de lidar com a vida seja aprimorado, se tornando algo com mais significado. Humanos amam estruturas e, ao mesmo tempo, o ego adora certezas; então surgem frequentemente argumentos sobre o que psicodélicos podem ou não fazer. Com integridade, compromisso e coragem, vastos aspectos da mente podem ser explorados. É importante compreender: aquilo que alguém vivencia depende bastante de seu sistema de crenças, motivação, condicionamento e do conteúdo inconsciente acumulado – isso inclui a rigidez com que a mente funciona.

Sou um novato iniciando na prática do budismo, então há muitas coisas nesse assunto em que sou ignorante. Contudo, já tive experiência considerável com psicodélicos, e minha maior preocupação é que haverá tentativas de categorizar esses poderosos auxílios e aprisioná-los nas paredes de decisões estreitas e críticas, cortando assim boa parte de sua utilidade potencial.

Descobri por mim mesmo que psicodélicos, quando apropriadamente compreendidos e utilizados, podem ter um papel significativo no aprofundamento e aceleração do progresso na prática da meditação. Mas isso não é verdadeiro para todos. Psicodélicos tem pouca utilidade para praticantes avançados que aprenderam a alcançar resultados sem o benefício de tais auxílios, ou para aqueles que podem ficar livres de obrigações cotidianas para se dedicar à prática extensiva diária. Além disso, encarar áreas da mente fortemente isoladas, com o uso de psicodélicos, pode produzir sentimentos desconfortáveis e intensos, que muitos prefeririam trabalhar de maneira mais gradual.

Meu foco é principalmente o grande número de pessoas que poderiam se beneficiar da prática proveitosa da meditação, mas que estão ocupados no dia-a-dia garantindo o sustento e cuidando da família. Tais pessoas têm vidas ocupadas e podem não ter o tempo para se devotar ao aperfeiçoamento da prática, que leva a uma grande liberdade. Para eles, o uso bem informado de psicodélicos pode ser bem útil para se alcançar o nível de realização em que a prática se torna auto-sustentável. A realização última da liberação deve ocorrer através do desenvolvimento interior, que não depende do uso de uma planta ou componente químico, embora eles possam ser úteis para descobrir o caminho.

Há diversos fatores-chave para se considerar ao avaliarmos se o uso de psicodélicos pode ser útil a alguém.

1. Status legal. De certo modo, essa discussão é hipotética, porque atualmente a posse da maioria dos psicodélicos é ilegal nos Estados Unidos. Ocidentais, por diversos séculos, têm focado primeiramente no mundo exterior, resultando na negligência do desenvolvimento de habilidades interiores. Essa negligência, casada com uma forte ênfase no materialismo e reducionismo, tem criado uma dolorosa cisão entre valores adotados conscientemente e os interesses profundos do ser. Para a maioria, ficou tão doloroso revelar esse forte conflito que as substâncias que poderiam fazer isso tiveram seu uso criminalizado. Mas isso não parou diversos terapeutas dedicados e pesquisadores que acreditam que o valor de tais substâncias é maior que o risco de prisão. O status ilegal também cria o problema de se encontrar substâncias puras cuja dosagem seja confiável. Não estou advogando que alguém descumpra a lei. Estou apontando a importância de se desenvolver políticas claras e racionais que vão permitir o estudo científico adequado dessas substâncias e, de modo último, a compreensão de seu potencial.

2. Metodologia. É importante que aqueles que desejam realizar um trabalho com psicodélicos estejam muito bem informados sobre procedimentos apropriados. Infelizmente, o status ilegal dos psicodélicos tem evitado a publicação e a divulgação de resultados e práticas efetivas. Contudo, estão disponíveis diversas informações para guiar o pesquisador sério, se ele fizer o esforço de procurar bem. Alguns exemplos excelentes de procedimentos adequados podem ser encontrados nas seguintes referências:

• O livro de Grof (1980) “LSD Psychotherapy” é um tesouro de boas informações. Em particular, veja as seções “Psychedelic Therapy With LSD” (págs. 32-38), “Personality of the Subject” (págs. 52-64), “Personality of the Therapist or Guide” (págs. 89-107) e “Set and Setting of the Sessions” (págs 108-116).

• Em Adamson e Metzner (1988), foi dada bastante atenção a regras para a sessão, preparação e set/setting.

• O folheto “Code of Ethics for Spiritual Guides” foi preparado pelo Conselho de Práticas Espirituais, que pode ser contatado no endereço Box 460065, San Francisco, CA 94146-0065.

• Finalmente, Stolaroff (1993) apresenta um breve sumário dos fatores importantes a levar em consideração.

3. Dosagem baixa. Muitos dos que têm feito experiências com psicodélicos têm usado doses elevadas para garantir a entrada em níveis transpessoais bem recompensadores. Tais experiências podem ser terrificantes, convincentes e extremamente gratificantes. Ainda assim, frequentemente acontece de essas experiências irem se apagando com o tempo, a menos que haja esforço concentrado em realizar as mudanças indicadas. Em experiências profundas, as camadas de condicionamento – que, em estados comuns, impedem a liberação – são transcendidas, e do eminente ponto de vista do estado transcendental, o condicionamento pessoal parece algo sem importância, que passa despercebido. Mas, após a experiência, velhos hábitos e padrões voltam – é comum não haver depois nenhuma alteração no comportamento. O uso de doses baixas normalmente costuma ser muito mais efetivo para lidar com nosso “lixo psíquico”. Muitos não se preocupam com doses baixas porque elas podem ativar sentimentos desconfortáveis; eles preferem transcendê-los ao ser empurrados para estados mais elevados. Mas são justamente esses sentimentos desconfortáveis que precisam ser resolvidos para que se atinja a verdadeira liberdade. Com dosagem baixa, ao focar diretamente esses sentimentos, mantendo-se sem aversão e apego, eles com o tempo vão se dissipando. Esclarecer os sentimentos reprimidos dessa maneira clareia o interior, permitindo que a Verdadeira Identidade se manifeste de maneira mais firme. Tal resultado fornece mais energia, paz mais profunda, consciência mais perceptiva, maior claridade, intuição mais aguçada e maior compaixão. Isso permite o aprofundamento da prática da meditação. Os sentimentos ocultos que vêm à tona nesse processo com frequência permitem uma nova compreensão sobre a dinâmica da personalidade.

4. Substâncias variadas. Algumas substâncias podem ser mais adequadas para desenvolver a prática da meditação do que outras. Pessoalmente, tenho experiência significativa com fenetilaminas, cujos melhores exemplos são 2C-T-2, 2C-T-7 e 2C-B (nomes abreviados para 2,5-dimethoxy-4-(ethylthio) phenethylamine, 2,5-dimethoxy-4-(n-propylthio) phenethylamine e 4-bromo-2,5-dimethoxyphenethylamine, respectivamente). Os procedimentos para síntese e as características materiais de todas essas substâncias são descritos em Shulgin e Shulgin (1991). Elas têm a característica de possuir algumas das qualidades centrais do MDMA, sendo mais como o LSD – mas sem o seu poderoso “empurrão”. Isso reduz a probalidade do usuário ficar preso em profundos fossos de material reprimido. Não sendo tão fortes como LSD, essas substâncias requerem o desenvolvimento de esforço mental para se alcançar níveis de experiência equivalentes. Esse é o mesmo tipo de esforço mental trabalhado pela boa prática da meditação. Consequentemente, é mais fácil focar a atenção sob a influência dessas substâncias, o que permite o desenvolvimento dos fatores da boa meditação. Assim que alguém desenvolve habilidade em chegar ao estado desejado, descobre-se que a vantagem de uma substância sobre outra diminui. Então, a dose comum (conhecida experimentalmente, geralmente equivale a 25/50 microgramas de LSD) da maioria dos psicodélicos de longa duração se torna proveitosa.

5. Liberação de áreas fortemente trancadas. A prática do budismo em geral, do modo como entendo, não é necessariamente uma forma de terapia, apesar de haver muitas instruções em textos antigos para se resolver problemas com atenção focada e a aplicação da intenção para mudar o comportamento. O resultado é que muito material inconsciente jamais se resolve, apesar da habilidade da mente em alcançar níveis elevados de estado desperto. Para uma discussão sobre a diferença entre a realização meditativa e o processo revelador da psicoterapia, veja Wilber (1993, págs 196-198). Psicodélicos facilitam a chegada e a limpeza desses níveis profundos, frequentemente bem cercados. Isso permite um alívio maior e a dispensa de padrões não desejados de personalidade e comportamento. Algumas áreas fortemente reprimidas – como a dolorosa experiência do nascimento, pela qual passei em minha primeira sessão com LSD (Stolaroff, 1994) – poderiam nunca ser resolvidas, sem a ajuda de psicodélicos.

6. Intervalos inteligentes entre experiências. Em minha própria prática, intencionalmente limitei para uma hora minhas sessões formais matinais de meditação, a fim de deixar bastante tempo para agir no dia-a-dia. Asssim, o que quer que eu descobrir será mais útil para as pessoas limitadas ao desejo ou necessidade de serem funcionais no mundo. Embora eu tenha avançado suficientemente em minha prática para evitar alguns dos sintomas típicos do envelhecimento (tenho 77 anos) – como perda de energia, músculos enrijecidos e doloridos e sintomas cada vez maiores de artrite – ainda vejo que após um tempo começo a adquirir tais sintomas. Quando isso acontece, uma experiência psicodélica adequada é um rejuvenescedor bastante eficaz. Sintomas de envelhecimento são sumariamente dissipados, e fico em um estado muito mais aproveitável. Também fica mais fácil manter essa condição através da minha prática regular de meditação. Além disso, se há profundos processos, subliminares e inconscientes, que criam um fardo, como vivenciei na maior parte de minha vida, considero de grande ajuda modificar tais padrões com psicodélicos. Ao mesmo tempo, é importante não contar simplesmente com outra experiência para superar dificuldades. Diversas vezes, descobri que aplicar uma quantidade maior de intenção pode resolver restrições significativas, através da meditação apropriadamente focada, com a vantagem de um estado de bem-estar mais permanente e satisfatório. Tal trabalho também garante que, quando uma experiência adicional é apropriada, ela será consideravelmente mais recompensadora.

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Comentários

Olá, sou o responsável pelo Blog Integrando Fragmentos.. muito bom o texto, de ótima fonte.. obrigado por partilhar e parabéns pelo Blog, venho acompanhando... um abraço
Não sabe onde podemos encontrar essa matéria da Tricycle original na integra? Qualquer coisa me envie um email. Abraços.

Olá Mauricio, São várias matérias e entrevistas, já que a edição foi quase toda dedicada a isso. Só tenho ela em papel. Aos poucos, vou tentar colocar aqui os artigos mais relevantes. Abs.

Entendi, a revista é muito grande? Talvez fosse interessante escanea-la e disponibilizar esses arquivos para quem tivesse interesse em ler na integra. De qualquer maneira, obrigado pela resposta e parabens pela iniciativa tanto desse blog, quanto do samsara que são muito legais. Abraços.

Oi Mauricio, eh, os artigos sao um pouco extensos sim. Valeu!

Realmente muito bom texto! Acredito que se o uso de psicodélicos fossem legalizados para de uso de forma "ritualística", a humanidade só teria a evoluir.

sim sim, Mai. Me considero afortunado por estar no Brasil, onde temos liberdade para comungar a ayahuasca. abs!

Otimo material. Obrigado por compartilhar. Estou iniciando uma pesquisa pessoal sobre enteogenos visando fins meditativos e 'magickos' e seu site vem bem a calhar. Parabens pelo trabalho. Élisson.
Quero agradecer pelo texto, muito bom. Veja que tenho contato com daime há mais de 10 anos e recentemente tenho mudado muito a minha percepção do uso de psicodélicos como um meio de desenvolvimento da consciência pelos seguintes motivos: 1- Sem um trabalho como o proposto pelo Groff de uma terapia com psicodélicos, o material que emerge do incosciente se perde, como um "bardo" ou um sonho que não é integrado ou interpretado. 2- A maioria das pessoas que eu vejo usando daime/vegetal não se importam com o cultivo espiritual constante o que faz com que a substância acabe sendo um narcótico, entorpecendo a consciência mais do que provendo verdadeiras iniciações. 3-Infelizmente as práticas, e conheci todas as linhas, são por demais religiosas e dogmáticas, o que promove alguns símbolos de apoio às experiências, mas ao longo prazo acabam por servir como uma muleta. 4- O contato com amparadores mais lúcidos e preocupados evolutivamente com o desenvolvimento diário de "holopráticas" não parecem ser compatíveis com o uso de substâncias psicoativas. 5- Enfim, acho que as experiências de pico podem ser muito positivas mas não encontram espaço de acolhimento sério das "emergências espirituais" que provocam.

Olá Mário. Obrigado pelo comentário enriquecedor!

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